badalação

o coroinha
assaltou
o sangue
de Jesus

agora
badala
os sinos
sem-fim

primavera - (Sol) Lyllytthhg


para todas as outras coisas

tirar o diabo
do corpo
equivale a
um orgasmo

isto não tem preço

primavera - (Sol) Lyllytthhg


tempo zero

o nada
são negações

deus é incriado

estou cheia de

a-
in-
des-

não-ser

estou cheia de
ruminação
e silêncio

dúvidas

primavera – (Sol) Lyllytthhg


sem palavras

deus
não pode
ser
nada
maior
que ele

primavera - (Sol) Lyllytthhg
Perdão

Eu te perdôo
Pela dor da saudade
Quando sua ausência
É uma eternidade.

Eu te perdôo
Pelos beijos na face,
Beijos de amigo,
Beijos de irmão.
Eu te perdôo
aaaaaaPor deixar
tão acelerado
aaaaaaMeu coração.

Eu te perdôo
Por esse amor ameno,
Esse amor sereno
Que não é paixão.

Eu te perdôo
Pelo olhar perdido
Em algo escondido
Que não era eu.

Eu te perdôo
Por deixar bem claro,
Que eu não sou tua
E você não é meu.

Mari Vieira

(oficina de prosa)

Sem licença

Quero um personagem sem nada interiorizado
Com o puro teatro da alma
para invadi-lo impiedosamente
e fazer de um corpo
um homem.

Carol Malaguti

INTERMITÊNCIA

Nessa inquietude que me cansa
Nessa saudade que eu sinto de você
Eu tento me conformar e me conter
Meu pensamento rodopia feito dança

No tanger do dia as horas passam
E essa espera eterna me agoniza
O sol desaparece a noite encaixa
Tocando meu rosto apenas leve brisa

Não sei se o terei um dia nos meus braços
Mas no coração está presente a toda hora
Cai a noite eu adormeço de cansaço

Quando desperto no romper da aurora
É justamente quando quero o seu abraço
E é essa saudade intermitente me devora

Josefa Matos

Anseios

Quando ouço a tua voz
Meus ouvidos embevecem-se
Meu “ser” inteiro agradece
Sinto-me parte do seu “ser”.
Quando revela os teus medos
Teus anseios e segredos

Aos jogos de amor e sedução
Entro em completa ebulição
Quando me beija a boca,

Descansar no teu peito.
Bem sabes, é o que mais anseio
No meio dessa aventura louca.


(quem sabe um dia...uma noite...)!

Josefa Matos
Barulhinho de boca mastigando me encanta

faço-me poeta do silêncio
entre as palavras que experimento
na boca de fala capenga e sem dentes

:presença curiosa deste barulhinho.

(sobre o ato de escrever – pensando na monitoria)
(Sol) Lyllytthhg
Inverno – 2009




elisão do eu

ver o de dentro
e pelos seus olhos

sentir o aveludado das palavras
em toda sua dor ancestral

êxtase
:encontro

um único nascer

(Sol) Lyllytthhg
Inverno/2009
(sobre o ato de escrever)




ruminação

palavras líquidas tomam conta da minha escrita

chá chinês aromatiza o papel sobre a mesa

pingos escuros compõem as letras a dançarem
uma língua de vivo e desconhecido sabor

a cor é de maracujá maduro

e a carne, de graviola,
violentamente doce

mastigo as letras do poema que fugiu.

(Sol) Lyllytthhg
Inverno/2009
(sobre o ato de escrever)




ruído

a batedeira insana
esquiva-se de massas levianas

quer claras idéias alquimistas

a neve permeia a liga
e a gema reintegra-se ao
ovo enigma

açúcar é necessário
mas sem exageros
no adoçamento

a batedeira
segue sua própria receita
(fruto de experiências e receitas alheias)

:o sabor é ao gosto do leitor.

(Sol) Lyllytthhg
Outono/2009
(sobre o escrever)




pie

a escrita

conexão
de almas

menor
aasolidão
aaaentre
tan tas
p a l a v r a s

fatia
um ser em mil

p
aaaaaaaaaaae

d
aaaaaaaaa

aaaç
o
aaaaas

:para cada
parte,
uma fatia

:o talher é a língua.

(Sol) Lyllytthhg
Inverno/2009
(sobre o escrever)




acidente

SE JOGOU NA FRENTE DO ÔNIBUS

não que se tratasse de um suicídio,
apenas estava vivendo automaticamente

: precisava atravessar a rua.


(Sol) Lyllytthhg
Inverno/2009
(Idade Midiática)




eclipse

barata, rato, motoboy,
o carro que tira racha
sozinho na avenida
antes do farol verde;

tráfego congestionado,
todos os dias a mesma notícia;
no não-sol nasce a solidão
:cruel ressarcir da sociedade

dor ao ver televisão e ler jornal
ao pé da cama, sol e lua
contra o consumo universal

e o foco monopolizador
da informação em massa
é o silenciador do consumidor.

(Sol) Lyllytthhg
Inverno/2009
(idade midiática e vila matas)
ESQUECER

Noite...
Rua deserta, penumbra,
Silêncio total...
Faróis baixos ligados,
Carro parado
Olho pro lado... Derrepente a cena!
Homem jogado ao chão,
Sacolas para todos os lados.
Acelero, faço a curva,
Que medo!

Consciência? Pede pra voltar.
Meia volta, desço, tento ajudar,
Aquele rosto enrugado,
Sangue quente corre-lhe na face.
Não aceita...

Quero ajudar...
Argumento, quase implorando,
Que estupidez!
Não aceita...

Chamo socorro, será assalto?
Não, cachaça...
Sempre a culpada.
Assim não tem jeito...
Pra que sofrimento!
Vou embora, ligo o rádio,
ouço uma música.
Esqueço.


Sueli R. S. Simão
Chovia a cântaros
Os sons de nota aguda em demasia
Chovia, chovia
E dentro da terra mole
O cheiro espesso de maçãs
Entrava agosto apenas
E as acácias tilintavam mornas nas manhãs.

Claudia Sarro
Quero escrever poemas
Mas há um cão em meu encalço
Ele saliva, com sua língua morna e ofegante
Sobre as estrofes, dormitando sonâmbulas, no fundo de um armário
Preciso escrever
Mas seus olhos perscrutam
Seus sentidos farejam
E aspiram para dentro de seu ventre mole
Qualquer sentença prenhe de sentido
Então ficamos assim, olhando-nos sem palavras
E o poema
expira

Claudia Sarro