ou buquê de seqüelas
em fratura imposta
ao que era doçura
e agora se bate
no leito equipado
O coração feito gelatina
bomba que descamba e manda
sangue para os pulmões
De uma hora para mais nenhuma
a doutora morde a língua
a profecia sai torta
esconjura o desastre
Passa a sombra de fininho
mas ali onde arou
fica sempre mais frio
e o pêlo não cresce
do livro: Baque - Fabio Weintraub
O anjo Malaquias
O Ogre rilhava os dentes agudos e lambia os beiços grossos, com esse
exagerado ar de ferocidade que os monstros gostam de aparentar,
por esporte.
Diante dele, sobre a mesa posta, o Inocentinho balava, imbele. Chamava-se Malaquias - tão piquinininho e rechonchudo, pelado, a barriguinha pra baixo, na tocante posição de certos retratos da primeira infância...
O Ogre atou o guardanapo ao pescoço. Já ia o miserável devorar o Inocentinho, quando Nossa Senhora interferiu com um milagre. Malaquias criou asas e saiu voando, voando,
pelo ar atônito... saiu voando janela em fora...
Dada, porém, a urgência da operação, as asinhas brotaram-lhe apressadamente na bunda, em vez de ser um pouco mais acima, atrás dos ombros. Pois quem nasceu para mártir, nem mesmo a Mãe de Deus lhe vale!
Que o digam as nuvens, esses lerdos cágados das alturas, quando, pela noite morta, o Inocentinho passa por entre elas, voando em esquadro, o pobre, de cabeça para baixo.
E o homem que, no dia do ordenado, está jogando os sapatos dos filhos, o vestido da mulher e a conta do vendeiro, esse ouve, no entrechocar das fichas, o desatado pranto do Anjo Malaquias!
E a mundana que pinta o seu rosto de ídolo... E o empregadinho em falta que sente as palavras de emergência fugirem-lhe como cabelos de afogado... E o orador que pára em meio de uma frase... E o tenor que dá, de súbito, uma nota em falso... Todos escutam, no seu imenso desamparo, o choro agudo do Anjo Malaquias! E quantas vezes um de nós, ao levar o copo ao lábio, interrompe o gesto e empalidece... - O Anjo! O Anjo Malaquias! - ... E então, pra disfarçar, a gente faz literatura... e diz aos amigos que foi apenas uma folha morta que se desprendeu... ou que um pneu estourou, longe... na estrela Aldebaran...
do livro: Sapato florido - Mário Quintana
(citado por Manoel Ricardo de Lima - 03.10.09)
exagerado ar de ferocidade que os monstros gostam de aparentar,
por esporte.
Diante dele, sobre a mesa posta, o Inocentinho balava, imbele. Chamava-se Malaquias - tão piquinininho e rechonchudo, pelado, a barriguinha pra baixo, na tocante posição de certos retratos da primeira infância...
O Ogre atou o guardanapo ao pescoço. Já ia o miserável devorar o Inocentinho, quando Nossa Senhora interferiu com um milagre. Malaquias criou asas e saiu voando, voando,
pelo ar atônito... saiu voando janela em fora...
Dada, porém, a urgência da operação, as asinhas brotaram-lhe apressadamente na bunda, em vez de ser um pouco mais acima, atrás dos ombros. Pois quem nasceu para mártir, nem mesmo a Mãe de Deus lhe vale!
Que o digam as nuvens, esses lerdos cágados das alturas, quando, pela noite morta, o Inocentinho passa por entre elas, voando em esquadro, o pobre, de cabeça para baixo.
E o homem que, no dia do ordenado, está jogando os sapatos dos filhos, o vestido da mulher e a conta do vendeiro, esse ouve, no entrechocar das fichas, o desatado pranto do Anjo Malaquias!
E a mundana que pinta o seu rosto de ídolo... E o empregadinho em falta que sente as palavras de emergência fugirem-lhe como cabelos de afogado... E o orador que pára em meio de uma frase... E o tenor que dá, de súbito, uma nota em falso... Todos escutam, no seu imenso desamparo, o choro agudo do Anjo Malaquias! E quantas vezes um de nós, ao levar o copo ao lábio, interrompe o gesto e empalidece... - O Anjo! O Anjo Malaquias! - ... E então, pra disfarçar, a gente faz literatura... e diz aos amigos que foi apenas uma folha morta que se desprendeu... ou que um pneu estourou, longe... na estrela Aldebaran...
do livro: Sapato florido - Mário Quintana
(citado por Manoel Ricardo de Lima - 03.10.09)
Filó
O negrinho Filó era um artista no pente. Naquele velho pente envolto em
papel de seda, tirava tudo, de ouvido, desde a Canção do Soldado até
La donna è mobile. A gente ficava escutando, com orgulho e inveja.
Pois nenhum de nós conseguia tocar pente. Dava-nos cócegas e, como dizia
Gabriela, "a gente se agachava a siriri que não parava mais".
Quando ele morreu, foi logo declarando a sua qualidade, para S. Pedro:
"Musgo!". E S. Pedro lhe deu uma gaitinha de boca. Uma linda gaitinha de
boca! E até hoje ele vive explicando que não há nada como o pente...
mas o Céu é tão perfeito que na sua Filarmônica não existem instrumentos de
emergência: um pente, lá, é um pente mesmo.
do livro: Sapato florido - Mário Quintana
(citado por Manoel Ricardo de Lima - 03.10.09)
papel de seda, tirava tudo, de ouvido, desde a Canção do Soldado até
La donna è mobile. A gente ficava escutando, com orgulho e inveja.
Pois nenhum de nós conseguia tocar pente. Dava-nos cócegas e, como dizia
Gabriela, "a gente se agachava a siriri que não parava mais".
Quando ele morreu, foi logo declarando a sua qualidade, para S. Pedro:
"Musgo!". E S. Pedro lhe deu uma gaitinha de boca. Uma linda gaitinha de
boca! E até hoje ele vive explicando que não há nada como o pente...
mas o Céu é tão perfeito que na sua Filarmônica não existem instrumentos de
emergência: um pente, lá, é um pente mesmo.
do livro: Sapato florido - Mário Quintana
(citado por Manoel Ricardo de Lima - 03.10.09)
um pensamento de KIERKEGAARD
a respeito do ponto Zero:
“O que eu sou é um nada; isso me dá, e ao meu gênio, a satisfação de conservar minha existência no ponto Z., entre o frio e o calor, entre a sabedoria e a estupidez, entre alguma coisa e o nada, como um simples talvez.”
PS.: esta busca surgiu do questionamento: “o que antecede o caos?”
“O que eu sou é um nada; isso me dá, e ao meu gênio, a satisfação de conservar minha existência no ponto Z., entre o frio e o calor, entre a sabedoria e a estupidez, entre alguma coisa e o nada, como um simples talvez.”
PS.: esta busca surgiu do questionamento: “o que antecede o caos?”
Sem-teto japonês
Poemas de sem-teto anônimo
causam comoção no Japão
Philippe Pons
Em Tóquio [16/03/2009]
Eles são cada vez mais visíveis. Mas os passantes cruzam com eles aparentemente sem vê-los. Indiferentes, constrangidos. Suas sombras furtivas, miseráveis, aqui e ali nas estações ou nos parques, lembram bruscamente a muitos de suas próprias dificuldades. Seu sofrimento parece incorpóreo. Eles não mendigam e sobrevivem dos restos da sociedade de consumo. Essa sociedade os ignora e foge deles, os sem-teto das grandes cidades japonesas. Dois mundos que andam próximos, mas fingem não se ver.
Completamente inquietante, uma voz se eleva deste mundo de "náufragos" da prosperidade. Desde o fim de 2008, o jornal "Asahi" publica poemas curtos de um autor sem-teto que permanece anônimo. E, certamente pela primeira vez, os leitores desse jornal descobrem através de suas palavras esse "povo de baixo" que, durante a noite, dorme em caixas de papelão aos pés daqueles que se apressam para não perder o último metrô.Como outros jornais, o "Asahi" tem uma coluna poética na qual são publicados poemas do gênero clássico waka, curtos e de beleza austera e melancólica, enviados por leitores que foram selecionados por um júri. Os concursos de poemas pertencem a uma tradição milenar no Japão. E os jornais a seguiram. A julgar pelo número que cartas de incentivo que o "Asahi" recebe, os poemas desse homem miserável, da rua, emocionaram mais do que um leitor.
A canção de Gréco
"Acostumado a viver sem chaves, eu passo o ano novo. De que mais ainda preciso me desapegar?" "Esta rua se chama a rua dos filhos infiéis. Eu não tenho pais, nem filho". "O homem não vive somente de pão, mas eu passo meu dia com o pão distribuído..." Sob uma noite estrelada, essa canção de Juliette Gréco, com letras de Jacques Prévert e música de Joseph Kosma, embalou o seu sono: "Adormecendo sob um céu estrelado, escutei a canção de Gréco. Era só uma ilusão..."
O poeta anônimo assina seus textos com o pseudônimo de Koichi Koda, mas o campo "endereço" que acompanha a publicação do poema, normalmente obrigatório, comporta a simples menção: "sem". O autor provavelmente vive no bairro de Kotobuki-cho, em Yokohama, uma das vilas de albergues decadentes, uma dessas armadilhas da cidade para onde correm os sem-teto.
A letra cuidadosa e a referência à canção de Juliette Gréco (que data dos anos 1950) fazem pensar que o homem é culto e deve ter mais de 70 anos. Logo depois da publicação de seus poemas pelo "Asahi", o poeta anônimo enviou outro: "Ao ler o artigo a meu respeito, como se tratasse de alguma outra pessoa, lágrimas me vieram aos olhos".
O jornal o chamou para que se apresentasse, nem que fosse para lhe pagar a pequena remuneração que acompanha a publicação do poema. "Estou comovido com sua gentileza, mas por enquanto não tenho coragem de entrar em contato com vocês", ele respondeu.
Tradução: Lana Lim
causam comoção no Japão
Philippe Pons
Em Tóquio [16/03/2009]
Eles são cada vez mais visíveis. Mas os passantes cruzam com eles aparentemente sem vê-los. Indiferentes, constrangidos. Suas sombras furtivas, miseráveis, aqui e ali nas estações ou nos parques, lembram bruscamente a muitos de suas próprias dificuldades. Seu sofrimento parece incorpóreo. Eles não mendigam e sobrevivem dos restos da sociedade de consumo. Essa sociedade os ignora e foge deles, os sem-teto das grandes cidades japonesas. Dois mundos que andam próximos, mas fingem não se ver.
Completamente inquietante, uma voz se eleva deste mundo de "náufragos" da prosperidade. Desde o fim de 2008, o jornal "Asahi" publica poemas curtos de um autor sem-teto que permanece anônimo. E, certamente pela primeira vez, os leitores desse jornal descobrem através de suas palavras esse "povo de baixo" que, durante a noite, dorme em caixas de papelão aos pés daqueles que se apressam para não perder o último metrô.Como outros jornais, o "Asahi" tem uma coluna poética na qual são publicados poemas do gênero clássico waka, curtos e de beleza austera e melancólica, enviados por leitores que foram selecionados por um júri. Os concursos de poemas pertencem a uma tradição milenar no Japão. E os jornais a seguiram. A julgar pelo número que cartas de incentivo que o "Asahi" recebe, os poemas desse homem miserável, da rua, emocionaram mais do que um leitor.
A canção de Gréco
"Acostumado a viver sem chaves, eu passo o ano novo. De que mais ainda preciso me desapegar?" "Esta rua se chama a rua dos filhos infiéis. Eu não tenho pais, nem filho". "O homem não vive somente de pão, mas eu passo meu dia com o pão distribuído..." Sob uma noite estrelada, essa canção de Juliette Gréco, com letras de Jacques Prévert e música de Joseph Kosma, embalou o seu sono: "Adormecendo sob um céu estrelado, escutei a canção de Gréco. Era só uma ilusão..."
O poeta anônimo assina seus textos com o pseudônimo de Koichi Koda, mas o campo "endereço" que acompanha a publicação do poema, normalmente obrigatório, comporta a simples menção: "sem". O autor provavelmente vive no bairro de Kotobuki-cho, em Yokohama, uma das vilas de albergues decadentes, uma dessas armadilhas da cidade para onde correm os sem-teto.
A letra cuidadosa e a referência à canção de Juliette Gréco (que data dos anos 1950) fazem pensar que o homem é culto e deve ter mais de 70 anos. Logo depois da publicação de seus poemas pelo "Asahi", o poeta anônimo enviou outro: "Ao ler o artigo a meu respeito, como se tratasse de alguma outra pessoa, lágrimas me vieram aos olhos".
O jornal o chamou para que se apresentasse, nem que fosse para lhe pagar a pequena remuneração que acompanha a publicação do poema. "Estou comovido com sua gentileza, mas por enquanto não tenho coragem de entrar em contato com vocês", ele respondeu.
Tradução: Lana Lim
Alguém já ouviu falar de Humberto Ak´abal?
Humberto Ak´abal é filho e neto de xamã da comunidade indígena maia-quiché de Momostenango, na Guatemala. Fiquei encantada com a sua simplicidade delicada que exalta a comunhão do homem com a natureza, um respiro para quem está acostumado a poluição.
Nesta minha busca por poesia de outros lugares, tive a felicidade de encontrá-lo e gostaria de dividir duas leitura com vocês. Um abraço, Liliane.
Os poetas
Os poetas
são como abelhas:
outros consomem o que produzem.
Aprendiz
Nestes ímpetos
me surge a vontade de escrever;
não porque saiba, senão
porque fazendo-o e desfazendo-o
é como aprendo esse ofício e,
por fim,
algo vai ficando em mim.
As encostas,
os morros,
os precipícios,
os velhos povoados
têm segredos encantadores,
daí o meu desejo de levá-los a passear
em folhas de papel.
Esse belo ofício tenho de tratá-lo
como supertarefa, ainda que me doa,
porque não conto com o tempo de que gostaria.
(Devo trabalhar em outra coisa para sobreviver.)
Meus versos têm a umidade da chuva,
ou as lágrimas do sereno, e não podem
ser senão assim, porque foram trazidos da montanha.
(poemas retirados do livro "Tecedor de palavras" de
Humberto Ak´abal. Ed. Melhoramentos, SP, 2006.)
Nesta minha busca por poesia de outros lugares, tive a felicidade de encontrá-lo e gostaria de dividir duas leitura com vocês. Um abraço, Liliane.
Os poetas
Os poetas
são como abelhas:
outros consomem o que produzem.
Aprendiz
Nestes ímpetos
me surge a vontade de escrever;
não porque saiba, senão
porque fazendo-o e desfazendo-o
é como aprendo esse ofício e,
por fim,
algo vai ficando em mim.
As encostas,
os morros,
os precipícios,
os velhos povoados
têm segredos encantadores,
daí o meu desejo de levá-los a passear
em folhas de papel.
Esse belo ofício tenho de tratá-lo
como supertarefa, ainda que me doa,
porque não conto com o tempo de que gostaria.
(Devo trabalhar em outra coisa para sobreviver.)
Meus versos têm a umidade da chuva,
ou as lágrimas do sereno, e não podem
ser senão assim, porque foram trazidos da montanha.
(poemas retirados do livro "Tecedor de palavras" de
Humberto Ak´abal. Ed. Melhoramentos, SP, 2006.)
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