alucinação de palavra

se há sanidade
em desdizer
loucura
em existir

o olho,

ínfimo ângulo,

um profundo senão,

é a figura dispersa
amalucada
líquida
fácil de ler

poema presente

verbo

simpático e puro

perdão de Lilith

a luz do futuro

todos o lembrarão:

tiro no escuro

eclipse fingido

mergulho em claro

enigma

se deixa esconder.

(Sol) Lyllytthhg
Inverno/2009

Sonetilho de verão

PAULO HENRIQUES BRITTO

Traído pelas palavras.
O mundo não tem conserto.
Meu coração se agonia.
Minha alma se escalavra.
Meu corpo não liga não.
Me perco na contramão

A idéia resiste ao verso,
Da idéia em reverso,
o verso recusa a rima,
a rima afronta a razão
e a razão desatina.
Desejo manda lembranças.
Orfeu brande sua lança.

O poema não deu certo.
A vida não deu em nada.
Não há deus. Não há esperança.
Amanhã deve dar praia.


por Eduardo Vasconcelos

Oficina irritada

CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE

Eu quero compor um soneto duro
Hei de buscar na poesia o concreto
como poeta algum ousara escrever.
Soneto-mármore hei de escrever
Eu quero pintar um soneto escuro,
Soneto cáustico de ângulo reto
seco, abafado, difícil de ler.

Quero que meu soneto, no futuro,
não desperte em ninguém nenhum prazer.
E que, no seu maligno ar imaturo,
ao mesmo tempo saiba ser, não ser.

Esse meu verbo antipático e impuro
há de pungir, há de fazer sofrer,
tendão de Vênus sob o pedicuro.

Ninguém o lembrará: tiro no muro,
cão mijando no caos, enquanto Arcturo,
claro enigma, se deixa surpreender.

por Eduardo Vasconcelos
Oficina irritada
CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE

Eu quero compor um soneto duro
como poeta algum ousara escrever.
Eu quero pintar um soneto escuro,
de dor, no que não se pode crer.
seco, abafado, difícil de ler.

Quero que meu soneto, no futuro,
não desperte em ninguém nenhum prazer.
E que, no seu maligno ar imaturo,
Um eclipse maduro possa jazer.
ao mesmo tempo saiba ser, não ser.

Esse meu verbo antipático e impuro
há de pungir, há de fazer sofrer,
impondo um amanhã vazio e escuro.
tendão de Vênus sob o pedicuro.

Ninguém o lembrará: tiro no muro,
cão mijando no caos, enquanto Arcturo,
no céu, é tudo que se pode ler.
claro enigma, se deixa surpreender.

por Silvio J. Pedro
Oxina imitada

Espero compor um sexteto impuro
quanto cantor nenhum saberá entender.
Espero fazer um sexteto obscuro,
mudo, acanhado, difícil de ler.

Quero que meu sexteto, no futuro,
embriague alguém para dizer
Que do seu maligno ar ludíbrio,
Possa ao menos beber, beber.

Essa minha voz ébria e insegura
há de fingir, há de poder dizer,
tonel de vinho sob o Epicuro.

Ninguém o cantará: soco no escuro,
Voz pisada no chão, enquanto
Vermute, claro epígrafe, se deixa embevecer.

por Claudia Sarro

(Sobre "Oficina irritada"
CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE)
Oficina irritada
CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE

Eu quero compor um soneto duro
como poeta algum ousara escrever.
Eu quero pintar um soneto escuro,
seco, abafado, difícil de ler.

Quero que meu soneto, no futuro,
não desperte em ninguém nenhum prazer.
E que, no seu maligno ar imaturo,
ao mesmo tempo saiba ser, não ser.

Esse meu verbo antipático e impuro
há de pungir, há de fazer sofrer,
tendão de Vênus sob o pedicuro.

Ninguém o lembrará: tiro no muro,
cão mijando no caos, enquanto Arcturo,
claro enigma, se deixa surpreender.
Soneto de calamidade

De tudo, ao amor serei tormento
Pontes, e com camelo, e sempre, e manco
Que mesmo alface do maior recanto
Dele se plante mais ressentimento

Quero retê-lo em cada cão movente
E em seu horror hei de espantar meu santo
E rir meu riso e derrubar meu manto
Ao seu penar ou seu afogamento

E assim quando da lage me empurrem
Quem sabe a sorte, astúcia de quem vive
Quem sabe a confissão, fim de quem clama

Eu possa lhe dizer do calor (que tive)
Que não veja moral, posto que é lama
Mas que seja apocalíptico enquanto duro

por Claudia Sarro

(Sobre "Soneto de fidelidade"
VINICIUS DE MORAES)
Soneto de fidelidade
VINICIUS DE MORAES

De tudo, ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento

Quero vivê-lo em cada vão momento
E em seu louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento

E assim quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama

Eu possa lhe dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure
Pedacinhos de sonhos

Descobri nas sombras
De um final de manhã
Sob o sol quente de verão
Que até nos momentos
De desencanto
E no pensamento que será
Sempre encanto
Necessito de você, de seu abraço
Forte e cativante,
Que me envolva,
Enlace-me,
E assim, descubra
Quem, eu realmente sou,
Qual meu verdadeiro nome
E assim, tornar o dia radiante!
Aprender a viver ou não viver,
A vida terá que dar certo.
Pra nunca mais... Dizer adeus.

Sueli R. S. Simão


(Sobre "Sonetilho de verão"
PAULO HENRIQUES BRITTO)
Sonetilho de verão
PAULO HENRIQUES BRITTO

Traído pelas palavras.
O mundo não tem conserto.
Meu coração se agonia.
Minha alma se escalavra.
Meu corpo não liga não.

A idéia resiste ao verso,
o verso recusa a rima,
a rima afronta a razão
e a razão desatina.
Desejo manda lembranças.

O poema não deu certo.
A vida não deu em nada.
Não há deus. Não há esperança.
Amanhã deve dar praia.