Descrevi um mar de areia

Na areia clara do mar
(Cordel)


Frente a esta imensidão
E perdido em seu encanto
Chego até sentir espanto
Por tamanha solidão
Diante de um coração
Que triste chora a clamar
Por não mais se enxergar
Não sentir sangue na veia
Descrevi um mar de areia
Na areia clara do mar.

Meus olhos, não mais os vejo
Com aquele brilho irradiante
Que um dia por um instante
Na revelação, um ensejo
Encantando como um arpejo
Quem os quisesse fitar
Quem soubesse admirar
Se perdendo nesta teia
Descrevi um mar de areia
Na areia clara do mar.

Sombrio e triste deserto
Encantos assim medonhos
No obscuro dos meus sonhos
Não vejo caminho certo
À deriva fico quieto
Não sei que rumo tomar
Sinto medo ao enxergar
Que a razia me rodeia
Descrevi um mar de areia
Na areia clara do mar.

Batalha do próprio ser
Perante sua inquietude
Terna e vil esta virtude
De querer se conhecer
Sem nunca saber dizer
Onde é que realmente está
Porque se deixou levar
Hoje insana dor tão feia
Descrevi um mar de areia
Na areia clara do mar.

Restou-me inspiranidade
Tentando assim entender
Qual a busca deste ser?
O porquê da realidade?
Qual sentido da verdade?
Onde eu mesmo fui parar
Perante este meu pensar?
A dúvida me permeia
Descrevi um mar de areia
Na areia clara do mar.


Paulo Dantas

O Reflexo da Beleza

(Cordel)

Lembrar dos tempo de casa?
Má rapaz! É bom demais
Ói, um bom tempo já faz
Mas inda arde feito brasa
E a emoção sempre extravasa
Correndo água dos ói
Apertando o peito dói
E agente então macambuzo
Chega inté ficar confuso
Mas o amor num se destrói.

Das criancice Nordestina
Lá dos tempo de escola
Nós corria e jogava bola
E na fila da cantina?
Nós paquerava as menina
Pinicando o ôi pra elas
Dava inté um nó na goela
Quando era pra conversar
Pois sem ter o que falar
A coisa se desmantela.

Era muita presepada
Seja no sítio ou na rua
Sob o Sol ou luz da lua
Tivemo uma infância danada
Brincando pelas calçada
De toca ou de garrafão
Murcegava os caminhão
E bila? também jogava
As mãe bem cedo chamava
E ninguém num ouvia não.

Tem passêi de bicicleta
E as volta pela praça
Proseando, achando graça
As estória dos poeta
Que era as minha predileta
Cantada no mêi da feira
Assunto sério ou besteira
Eles brincando contava
Agente tudin gostava
E acunhava a risadeira.

Se juntava a meninada
Nos açude a pinotar
Aquilo era o nosso mar
E quando dava uma chuvada?
A rua inteira lotada
De menino nas biqueira
Disparado na carreira
E pro céu os véi olhava
Na previsão começava
E era tudin bem certeira.

Agente lá se acordava
Com o cantar dos passarin
E na algazarra eles tudin
Logo cedo começava
Quando o Sol se apresentava
No curral os boi mugia
As galinha já corria
Quando milho nós jogava
Os cachorro se engatava
Se arrastando em latumia.

Quando chegava a noitinha
Com todo aquele alvoroço
Era a vez de cair no poço
Pra salvar as menininhas
Dando aquela bitoquinha
Que chega nós se animava
Os casalzin se formava
E acunhava o pega-pega
Nas parede o esfrega-esfrega
Logo-logo começava.

As muié impiriquitada
Jogando o xaume pros homi
No intenção de saber o nome
Nós ia tomando chegada
E qualquer estória inventada
Botava-se a palestrar
E se ela se descuidar
Nós achunha a cafungada
No pescoço da danada
Pra ela se apaixonar.

Mas Homi! Era muito bom
Tinha as festa de São João
O monte São Sebastião
Com todo fom-rom fom-fom
A baruiada dos som
E agente ali atracado
Com as muié tudo imbeiçado
Todo chei das safadeza
A vida era uma beleza
E eu nem tinha reparado.

Tem as festa de padroeiro
Com sorvete e algodão doce
No bingo? Bati! Nós oiçe
Tem cantor e tem violeiro
Tem novena e tem romeiro
Tem parque com carrossel
Colarzin, pulseira e anel
Nas barraca pela praça
E pro santo, pelas graça
Pistoleta lá no céu.

Esse aroma da pureza
Pelas venta nós sentia
O vento também trazia
Bem de longe uma certeza
Chegando a nós com clareza
E era só agente olhar
E a tal essência ir buscar
Com muita da boa vontade
Sempre com simplicidade
De quem ama o natural.

Era bom demais a vida
E era fácil ser feliz
Eu sempre fui aprendiz
Dessa vivença sofrida
Porém muito colorida
Com as cores do que é mais belo
O meu Nordeste singelo
Que muita lição me deu
É também o espelho meu
E onde eu me vejo mais belo.


Paulo Dantas

Premonição

Esta pessoa de nome Armando é um ser muito especial em minha vida. Ele, de tão estimado me faltam palavras para demonstrar o tamanho de minha admiração e carinho. O tio era caçula dos sete filhos de minha avó, rapaz bonito e carismático. Visitava a nossa casa, agora casa de minha mãe, desde que eu era criança. Sua presença, somada aos causos contados, faziam meus olhos cintilarem de tanta curiosidade. Todo mundo tem um tio de sua predileção, eu amei todos, mas com esse tio tive afinidades a mais, pois me alegrava o jeito divertido com que ele levava a vida. Sempre me pareceu um menino, mesmo depois de mais velho, irmão de minha mãe Lola. Tinha como profissão motorista e certa época transportava flores. Eu via essa sua última profissão antes de se aposentar de maneira romântica. Imaginava ele a levar rosas para todos os cantos do Brasil, e achava isso tão bonito. Sei que por ter que cumprir horários para entregas, costumava correr um pouco mais do que devia quando dirigia, deixando a minha mãe preocupada. Devido a isso a mãe vivia sonhando com ele. Certa vez sonhou com um acidente. Neste sonho, ora meu pai aparecia machucado, ora meu tio. No final da tarde do dia seguinte meu tio chegou do serviço com a cabeça enfaixada. O capô do caminhão caiu em sua cabeça quase provocando o pior. Lola, a minha mãe, tinha sonhos que quase sempre aconteciam. Aconteceu comigo também. Certa vez sonhou que me via sendo atropelada, mas não deu muita atenção. No outro dia, sai de casa junto com minha irmã para comprar doce de vela. O doce era parecido com vela branca e tinha umas listras vermelhas. Não deu outra, soltei a mão de minha irmã e atravessei a rua, foi quando um caminhão me arremessou três metros de distância encima de um barranco. Lembro da multidão de pessoas querendo me socorrer. Fiz xixi no colo da pessoa que me pegou. Não morri, é óbvio. Às vezes, ouço falar que só se morre na hora certa e isso parece ter um fundo de verdade. Já meio escaldados com os sonhos de minha mãe, achávamos que se avisássemos as pessoas envolvidas na previsão poderíamos impedir que algo de mal lhes acontecessem. Não passou muito tempo, mãe sonhou com o tio se acidentando novamente, fiquei apavorada e disse:
_Mãe, Nós precisamos avisar o tio.
Mãe pegou o telefone e ligou para o tio
_Mando, é a Lola. Sonhei que você se acidentou. Quero que tome cuidado.
O tio respondeu com seu jeito debochado:
_ Lola, Eu fui viajar para o Nordeste. Bati com o caminhão no poste e tô de volta.
Pode ser que alguém lendo essa estória, esteja pensando o porquê a minha mãe não sonhava com o primeiro prêmio da loteria federal em vez de tragédias. Pois é, ela sonhou, mas para o nosso azar não achamos o bilhete para comprar.

Solange Rossignoli

JOSÉ

O seu nome era José. Mas, era chamado carinhosamente por veio, no bairro em que morávamos. Eu nesta época, para se bem franca, não tinha consciência da importância que ele tinha em minha vida. Quando éramos criança nosso pai vivia a preocupar-se com o nosso sustento e quase não tinha tempo para ficar conosco. Foi com o passar dos anos que este véio entrou em meu coração de uma maneira, que hoje me surpreendo a procurar nas feições de outros veios algo de palpável para chegar até ele.
Outro dia quando eu e minha mão passávamos em frente ao bar, que meu pai freqüentava, eu falei para ela:
_ mãe, se o pai fosse vivo ele estaria sentado naquele cantinho agora.
_ é verdade, ele costumava ficar daquele lado.
Meus olhos tristes e saudosos se arrastaram pelo bar.
Olhei, olhei, quando de repente sentados no degrau, avistei três homens, o terceiro da esquerda para direita, era meu pai. Sentadinho, com o cabelo em desalinho a fumar o seu cigarro. Era incrível, tudo era tão igual, o jeito de olhar, as feições, o modo de ficar meio parado a contemplar o que se passava ao seu redor. Não pensem que meu pai tinha um aspecto comum, não tinha não. Apossou de mim uma euforia, que falei para mãe.
_ Mãe é ele, o pai, dê uma olhada.
Mãe, de pronto falou para mim.
Você está louca?
E eu insistia.
_Mãe, olha lá.
Ela olhou e foi obrigada a concordar, que o veio que estava lá era cópia do meu pai. Acho que isto acontece por que Deus se compadece das pessoas que perde seus entes queridos e faz outras parecidas que servem para matar a saudade louca que a gente sente no peito. Comentei com meu filho o acontecido e ele que falou com admiração.
_É verdade, tem um veio lá que é cara do vô Zé.

Solange Rossignoli

Tá Pirada, Mulher?

Outro dia ela acordou com o discurso pronto. Bom, acordou é modo de falar, creio que ela nem dormiu, deve ter passado a noite em claro pensando em política, segurança pública, economia, pesquisando na internet, sei lá...

Não quero dar uma de detetive, mas certas coisas são óbvias com um mínimo de observação. Apesar da maquiagem suas olheiras ainda eram visíveis, o que poderia ser sinal de uma noite mal dormida. Não sei se foi isso. Sei que ela estava alterada, pela forma como relatava o incidente ocorrido no ponto de ônibus.

– essa porcaria de ônibus sempre atrasa e quando resolve passar, não para. Justo quando a gente mais precisa chegar no horário. Se o mecânico não arrumar a droga do meu carro com urgência, eu troco de oficina. Imagine, não sei se processo o mecânico por lentidão, ou o motorista do ônibus por me deixar presa na porta. Esse sim, é um irresponsável nojento, um insensível, onde já se viu parar fora do ponto? Como posso correr com esses saltos? É isso que dá viver num país de terceiro mundo e de vez em quando depender de lotação.

Ela falava, gesticulava e batia o pé direito no chão num ritmo que lembrava sapateado e como uma torneira aberta deixou jorrar toda a sua ira. Desandou a falar mal do governo, reclamar das taxas de água, luz, telefone, etc. Embora parecesse ter razão em alguns pontos, a dose era excessiva. Não sabia se ficava com pena dela ou se dava risada da situação, escondido, é claro. Já era difícil imaginá-la toda elegante dentro de um lotação, imagine presa na porta. Bom, acho que não ri por puro medo mesmo. Minutos depois ouvi um barulho de coisa se quebrando – “é essa porcaria de vaso que está fora do lugar” – disse ela. Retesei o corpo, continuei em silêncio e por curiosidade olhei de relance e vi a terra esparramada, a violeta com as folhas quebradas e os cacos do vaso no chão. Não sou fã de jardinagem, mas aquela violeta de pétalas rendilhadas, toda lilás e branco era bem bonita. E era o xodó dela. Por um momento pensei que ela fosse apanhar a planta do chão para mais tarde colocar num outro vaso, mas não, ela amassou a flor com os pés como se fosse o tal motorista do ônibus ou quem quer que fosse a razão da sua raiva nesse dia.

Com insegurança pensei que não era eu. Aliás, eu nem havia lhe dado bom dia, não deu tempo. Pela forma como ela entrou na sala mais parecendo um furacão, preferi não arriscar e ela falava de um jeito que me deixava tremendo... Tentei desviar minha atenção para outro lugar, mas o ambiente todo estava tenso que nem dia nublado e quente anunciando um temporal. Evitava olhar nos olhos dela preocupado que deles pudesse sair um relâmpago, por que o trovão ficava por conta da voz.

Na janela, o gato espiava ressabiado parecendo ensaiar uma forma de adentrar o ambiente, afinal ele queria o seu habitual cafuné seguido de um biscoito, mas nesse dia ela parecia outra. Se pudesse teria lhe aconselhado a voltar para o beco onde vivia, mas não tenho esse dom. Não detesto animais, absolutamente, simplesmente não levo o menor jeito com eles. Ela sim, parece falar a língua dos felinos e entre os dois foi amor à primeira vista. Desde então, quase todo dia ele sai do beco e vem chegando de mansinho até receber o bendito cafuné e o biscoito. Em seguida, ela se concentra na papelada e ele vai embora de mansinho como veio, aparentemente feliz. Mas aquele definitivamente não estava sendo um bom dia pra ela e o pobre do gato pelo jeito não fez caso da situação e irracional, entrou na sala assim mesmo pra sair logo depois feito bala, miando como um louco. Acho que levou um sopapo (eu não vi) ou foi só susto pela forma como ela jogava as coisas sobre a mesa. De repente, ela parecia o Maguila. Quanta força! Confesso que não compreendo. E não pensem que sou covarde por não chamar o IBAMA, afinal quem vai acreditar que essa coisinha tão meiga, batom cor de rosa combinando com todo o resto também cor de rosa pode dizer essas coisas: “vou te dar uma porrada no meio da fuça”. Ai! Doeu! Só de ouvir.

Logo depois, sentou-se em frente a uma pilha de documentos – graças a Deus, pensei, agora ela se cala. Mas embora calada, segurava a caneta como um punhal e assinava os papéis como se estivesse escalpelando alguém. O medo faz a gente ver coisas e na minha mente eu começava a ver sangue marcando o papel ao invés da tinta azul da caneta, talvez por que ela continuasse batendo o pé no chão num ritmo que agora me fazia lembrar algum ritual macabro.
Eu olhava de soslaio e “em total mudez” quando ela pegou o jornal do dia. Pensei que fosse rasgá-lo tal a violência com que o puxou de sobre a mesa. Arrependi-me, se tivesse adivinhado tê-lo-ia escondido e naquele momento era impossível evitar que ela visse a notícia estampada bem grande na primeira página. Plaaá!!! Ouvi o barulho do jornal batendo contra a mesa. Encolhi-me feito um bebê no útero – essa merda de governo não sabe lidar com esses traficantes. Tem que meter bala neles, atirar pra matar, não é justo a gente ficar sustentando vagabundo na cadeia. E não bastasse isso, continuou o discurso defendendo o George Bush contra o que chamava de admirável coragem do Bin Laden por mandar derrubar as duas torres e bomba nuclear, vejam só, era um acessório imprescindível, afinal, nesse dia ela só queria guerra, queria mesmo era destruir o mundo, desejava ver sangue, muito sangue antes de morrer.
Ficou assim o dia inteiro, nessa desagradável violência verbal e gestual, e eis que de repente o seu desejo se concretizou. Quando foi ao banheiro, lá estava: havia sangue, muito sangue que um banho e um pacote de absorventes resolveram.

Ufah! Que alívio! No dia seguinte, ela era a mesma de sempre, cheia de sorrisos, abraços e beijos, meiguinha e gentil. Aliás, gentil apesar de estar sentindo uma leve dor de cabeça. E incrível, ela se comportava como se o dia anterior nunca tivesse existido. Achei melhor esquecer também e nem tocar no assunto para não correr o risco de despertar aquele vulcão aparentemente adormecido.

Mulheres e seus hormônios...


Mari Vieira