são e tem, teêm muita
pelo menos é e deduz
agora para ser, serem
-eternos, todas as manhãs
ingerem coisas, quer dizer
todo o oxigênio
entre os lábios

Rubens Pontes Rocha

(Livre composição de natureza morta em Innsbrucker Strasse de Antonio Cisneros, em Monólogo da Casta Susana (1986) – tradução de Carlito Azevedo e Aníbal Cristobo, em Sete Pragas Depois, SP, Cosac Naif, 2003, p. 221.)
Caminhas rotundamente por ruas sonâmbulas
Flagrando os passos trôpegos dos olhares na avenida
Estridentes britadeiras cortam o silêncio agreste
Onde repousas, adormecido, seu fino coração, o chapéu e a pele.
As praças nutrem de fumaça suas veias
Nos bancos abandonas suas velhas marcas e frases feitas
Antigos habitantes de mundos outrora vencidos
Te aliviam do peito as feridas abertas
Te levantas abrigando o ungüento entre as pálpebras cerradas
e um leve sorriso entre os dentes


por Claudia Sarro

(Sobre "Elegia" 1938 , em Sentimento do Mundo (1940)
CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE)
A palavra,
Parte de uma fonte oculta
Escarafuncha a matéria da qual nasce
Infértil
A outra,
Metade indisposta
Gruda nas pregas do papel e funda
o anti-poema
A matéria inerte


por Claudia Sarro

(Sobre "Na Biblioteca", em Cuidados intensivos (1944)
MANUEL ANTÓNIO PINA)
escolha *

a escolha do silêncio
por si só é linguagem

tormento é peneirar
palavras no indizível,

necessidade áspera
e indispensável,

:peneirar palavras
para preservar o
silêncio.

Liliane Pinatti
inverno/2009

(Sobre "Dúvidas apócrifas de Mariane Moore"
JOÃO CABRAL DE MELO NETO
)
Na biblioteca com Pina

o silêncio do não-dito
tenta falar palavras tardias;
a insegurança vira um livro-poema
que nada tem em suas páginas.

a bilbioteca consome
o silêncio escrito
e na noite o poema dor
me
para cantar sozinho.

Liliane Pinatti

(Sobre "Na biblioteca"

MANUEL ANTÓNIO PINA)
é o silêncio
que habita
pátios & praças
e percorre gélido

cortando de
fora-a-fora
o dia

braços e pernas
convulsas
numa dança
esquisita

num ralentando,
retoma-se
o ritmo
aaaaa[puro contra-tempo

dança de órbita
alongada
imenso salão
em que se
confraternizam
diferenças

ecos
do que
ainda está
por vir


por Silvio J. Pedro

(Sobre ""Mãos dadas", em Sentimento do Mundo (1940)
CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE)
Sobre vista

Tenho olhos que pouco refletem
que não falam do futuro
mas que resguardam o passado.
Meus olhos já enfrentaram a vida
não fugiram, nem foram raptados por serafins.

Hoje são entorpecentes
ausentam estímulos e respostas.
Contam uma história
que sempre foi fato sem testemunha.
Mas hoje distinguem a diferença de sentir e ver.

por Caroline Malaguti


(Sobre "Maõs dadas", em Sentimento do Mundo (1940)
CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE)