Amigos inseparáveis


Eles eram amigos, muito amigos por sinal: Visinhos de longa data, tinham por costume de se encontrar em um bar próximo a suas casas. Todo dia, era religioso, saiam do trabalho e iam direto para o bar, onde se distraíam jogavam dominó ou baralho. As conversas l eram regadas com cachaça e cerveja. Era isso que faziam a maioria dos homens daquela época, adoravam freqüentar um botequim. Depois seguiam para seus respectivos lares. José morava uns 200 metros de distancia da casa de Hans. Sempre era a mesma rotina, a não ser naquela noite que por ironia do destino não voltaram para suas casas. Lembro-me muito bem daquela noite, que tanto a família de José quanto a de Hans não conseguiram dormir tranquilamente. No dia seguinte foi tortuoso, achavam que algo de ruim havia acontecido. Eles eram procurados por toda parte, inclusive em hospitais e IML. Para o alívio geral foram encontrados, imaginem onde? Na delegacia. Acabaram ficando mais íntimos ainda, dormiram juntos. Na noite anterior foram para o bar, onde jogaram um jogo chamado buraco. Com certeza exageraram na bebida. Só sei que a certa altura do campeonato, já meio bêbados, um dos dois falou: “filho duma” o outro ofendido disse: não mete a mãe no meio, não mexe com a minha mãe e assim por diante, socos e pontapés. Nem mãe de bêbedo gosta de ser ofendida. Por azar dos dois amigos, neste momento passou em frente do bar uma viatura da rota, que por sinal precisava mostrar serviço. Levaram os dois para a delegacia e os colocaram na mesma cela. No outro dia nem lembravam direito o ocorrido, saíram da delegacia passaram no bar para tirar o gosto de cabo de guarda chuva da boca e foram para casa juntos, como sempre.

Solange Rossignoli 05.09.2009

Eu, uma bobó


Imaginem vocês, ela veio a jato. A mãe de Marina ficou sabendo de sua existência quando entrou no quinto mês de gravidez, portanto não tivemos que esperar muito, só esperamos quatro meses. No dia que ela nasceu, fiquei a noite inteira aguardando por sua chegada na maternidade. Deu o sinal que vinha, depois ficou enrolando para nascer. Se eu fosse ela também tinha enrolado, pois as coisas aqui fora não são nada fáceis. Quando nasceu era ela que iniciava o coro do choro no berçário. Ela chorava forte e as outras crianças acompanhavam. Olhei seus pezinhos escuros e estranhei, ficando um pouco preocupada.” Meu Deus, será que é algum problema?” Depois pensando melhor:” Boba é a tinta que passam nos pés dos bebês para carimbar”. A dizer a verdade, a idéia de ser avó sempre me assustou. Tinha a errada impressão que quando se é avó não se pode fazer as coisas que nos dá prazer. Associava a palavra avó com velhice e isso me apavorava. A velhice às vezes apavora. É triste ter a impressão de se ver murchar. Sinto a crueldade com que os idosos são tratados. Quase sempre deixados de escanteio, desprezados... Vejam, não sou velha e já sinto o preconceito dos mais jovens e isso me entristece. Mas vamos falar coisas agradáveis. Marina agora está lá em casa. Que menina linda, sorridente, olhinhos espertos. Mesmo falando para ela que o fato de eu ser sua avó seria o nosso segredo, surpreendo me ensinando Marina a falar: “Marina, fala vovó! Marina, fala vovó!” Outro dia, para minha alegria, ela falou bobó. Que menina esperta! Eu sabia que era de mim que ela falava, afinal, bobó também vem de bobona. E eu me sinto uma completa bobona de tanta felicidade. Faço palhaçada, canto, interajo com ela, aperto seu corpo ao meu e dançamos. È a vida renovada, é a minha esperança renovada. É ser mãe sem ter parido. É ter mais prazer que obrigação. Deus, como é bom ser bobó! Quero ser bobó várias vezes.

Solange Rossignoli 27.07.2009