Filó

O negrinho Filó era um artista no pente. Naquele velho pente envolto em
papel de seda, tirava tudo, de ouvido, desde a Canção do Soldado até
La donna è mobile. A gente ficava escutando, com orgulho e inveja.
Pois nenhum de nós conseguia tocar pente. Dava-nos cócegas e, como dizia
Gabriela, "a gente se agachava a siriri que não parava mais".
Quando ele morreu, foi logo declarando a sua qualidade, para S. Pedro:
"Musgo!". E S. Pedro lhe deu uma gaitinha de boca. Uma linda gaitinha de
boca! E até hoje ele vive explicando que não há nada como o pente...
mas o Céu é tão perfeito que na sua Filarmônica não existem instrumentos de
emergência: um pente, lá, é um pente mesmo.

do livro: Sapato florido - Mário Quintana
(citado por Manoel Ricardo de Lima - 03.10.09)