Oficina irritada

CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE

Eu quero compor um soneto duro
Hei de buscar na poesia o concreto
como poeta algum ousara escrever.
Soneto-mármore hei de escrever
Eu quero pintar um soneto escuro,
Soneto cáustico de ângulo reto
seco, abafado, difícil de ler.

Quero que meu soneto, no futuro,
não desperte em ninguém nenhum prazer.
E que, no seu maligno ar imaturo,
ao mesmo tempo saiba ser, não ser.

Esse meu verbo antipático e impuro
há de pungir, há de fazer sofrer,
tendão de Vênus sob o pedicuro.

Ninguém o lembrará: tiro no muro,
cão mijando no caos, enquanto Arcturo,
claro enigma, se deixa surpreender.

por Eduardo Vasconcelos