Prenúncio de viagem

A mulher e a mãe acomodaram-se finalmente no táxi que as levaria à estação. A mãe contava e recontava as duas malas tentando convencer-se de que ambas estavam no carro.
_Não esqueci de nada?, perguntava pela terceira vez a mãe.
_Não, não, não esqueceu de nada, respondia a filha divertida, com paciência ainda. E olhava para a frente, o coração apressado. Viajar! Finalmente a viagem chegara. Foi muito tempo desejando e planejando. Sentia-se livre, com poder sobre a vida, poder para decidir seu destino, poder para decidir para onde ir e ir! Parecia que a vida estivera escolhendo por ela há muito mas agora, agora era a sua vez de decidir. E era chegado o dia.
Não podia negar que havia um ponto negro. Seria melhor se pudesse ir sozinha mas não podia deixar a mãe. Era um fato: lutara contra o desejo de deixá-la mas considerou que seria muito cruel naquela circunstância. Então tinha que ser assim. Era o preço a pagar. E esse incômodo não passava de um pontinho escuro em meio a tantas outras sensações e sentimentos que a preenchiam. Mas, às vezes esse ponto negro, de mero ponto, parecia crescer. Parecia veneno, como se uma pequena dose fosse capaz de estragar tudo. Como uma boca negra e pequenininha que de repente se escancarava e era capaz de sorver toda sua liberdade. Como se ela fosse de mentira. Como se tudo o que conquistou fosse de mentira.
_Não esqueci de nada, filha? _ a mãe perguntava de novo. E seu ouvido nem ouvia direito a resposta da filha. Os olhos procuravam as malas. Não podiam ser esquecidas. Não podiam ser deixadas para trás. Lembrava-se desse sentimento.Parecia ter o mesmo medo que tinha na infância, como quando saíam para passear de ônibus e não sentava no mesmo banco que a mãe: tinha medo que ela se levantasse e esquecendo-se dela a abandonasse ali sozinha. Porisso não deixava de olhá-la, de segurá-la com os olhos...
As malas, ali: estava mesmo indo! Não iria mesmo ficar.
_Filha...
_Sim, mãe.
_Será que não esqueci de nada?

Parecia a batida insistente de um martelo repetindo, repetindo, irritante. E a batida incidia no ponto negro que parecia querer abrir sua bocarra de novo. Como se o ponto se alimentasse da raiva crescente que ía sentindo. Porque a mãe não parava de falar? Já não estava indo junto? Precisava ficar falando? E aquela insistência com as malas!
Sim, mãe, não esquecemos nada, e se esquecemos a gente compra lá. _E a filha olhou a mãe, já sem humor.
Foi nesse instante que aconteceu: quando deu com aquele olhar no rosto da mãe. O que ainda ía ser dito ficou em suspensão. A respiração parou ao meio e sobrou o susto. O susto daquele medo que ficou no meio do medo de tudo.
Como se o medo de uma e o medo da outra se encontrassem e se entendessem. Ambos pertenciam à mesma sorte de abismo, tinham a mesma qualidade de terror. Como se uma liberdade significasse um abandono, a liberdade de uma implicando necessariamente o abandono da outra e assim para o resto da vida. Alguém sempre estava em risco e as duas se entrelaçavam assim, sem poder seguir adiante, sem poder soltar e sem poder reter.
Naquele instante o reconhecimento: às vezes, quando se reconhece, algo pode mudar. O olhar preso no olhar da mãe, uma dor, uma dor que reverberava e parecia ecoar por todos os cantos do abismo que as ligava, imenso, no interior do táxi.
Medos antigos e o desejo de agarrar-se a alguma margem que desse segurança, pareceram romper os diques e se encontraram ali, naquele tempo-espaço de reconhecimento.
As duas souberam então de que moléculas era composta a massa de suas vidas. O desejo de liberdade de uma se encontrava no desejo da outra. O medo de uma se tocava no medo da outra, e tudo se complementava pelo inverso. E a massa que as compunha parecia girar como um caleidoscópio e era vertigem, e era um giro, e era menos que um segundo, tempo curto para o entendimento. Tempo suficiente do ponto negro se agigantar quase ao infinito, quase fazendo explodir as duas, para ser sorvido para dentro de si mesmo, numa implosão. E foi menos que um segundo, tempo esse exato para o entendimento: num momento inaugural, novos sentidos podiam ser vislumbrados, desconstruções e novas construções podiam ser geradas, as moléculas se ligando de um novo jeito.
E ela fechou os olhos um instante, querendo reter a coisa nova que se fazia. Abriu-os então e viu os olhos arregalados da mãe e soube:
_ O que houve,filha?
_Difícil dizer, mãe. Parece que está tudo bem agora.
_Entendo...
E ela soube que a mãe realmente entendia. Soube que a mãe sabia também.
As duas mulheres, mãe e filha, deram-se as mãos e recostaram no banco, a caminho do aeroporto. A viagem havia começado.

Márcia Torcatto