Lá estávamos eu e ele, nós que éramos inimigos de longa data. Ele gritava a todo instante: “decifra-me ou te devoro”. Sim, era o meu cotidiano.
E eu que já não mais cabia naquelas paredes tão amareladas pelo tempo, hoje sentia- me prisioneira, daquela vida que eu havia construído. E meu cérebro traçou mais que depressa um paralelo entre minha vida e de tantas outras mulheres que foram submersas naquele universo moldado para nós.
Casar, costurar. Casar, cozinhar. Casar, procriar. Essa frase ficou amarrada em meus pensamentos durante todo o dia enquanto realiza meu trabalho.
Assim eu alimentava minhas nocivas frivolidades.
Não era conveniente que mulheres lessem isso, certamente nos levaria a pensar.
Ainda meninota, papai decidiu que eu deveria aprender a ler e escrever. Ah! Recebi aquela notícia com tamanha alegria, que mal podia conter minha ansiedade para iniciar meus estudos e desbravar todos aqueles livros.
Para minha decepção, depois de um tempo, ele julgou que eu já estava instruída o suficiente para ler os livros de cozinha, as orações e os contos morais. Sabendo mais que isso eu seria um perigo no lar, e então não fui mais à escola. Confesso que naquele momento meu desejo era de soltar os cachorros... E gritar! E gritei que queria ir além do mundo que ele idealizara para mim. Mas a quem iria interessar minhas alegrias, minhas dores, meus lamentos e meus desejos.
Aqui estou novamente prisioneira de meu cotidiano, de tantos outros desejos e idealizações masculinas. Eu, minhas paredes amarelas, meus móveis já gastos pelo tempo e meus desejos reprimidos por tantos anos. E claro não poderia esquecer ela a lagartixa, a quem persigo todos os dias com a vassoura sem obter nenhum sucesso. Mas hoje finalmente consegui acertá-la e no meio de minha loucura pensei ter a ouvido pedir por socorro. Devaneios meus...
E assim meus dias passam sem mais novidades...
A menina sonhadora foi dando lugar à dona- de- casa por vezes atarefada e impaciente.
Meu mundo são essas mesmas paredes. Mas se eu disser que não gosto daqui estaria mentindo. Eu gosto! Gosto desse silêncio que atravessa minha alma e meu coração. Faz-me pensar... Que a minha vida pode ir além de minhas costuras, minhas panelas e minhas inquietações. Há quem prefira o caos, eu fico com a calma. Há quem prefira e precise aparecer, eu prefiro e preciso me recolher.
Agora, ao olhar a vida, volto a me perguntar onde anda aquela senhora que me prometeu dias melhores?! É aquela nossa velha conhecida! Eu a tratava por Dona Felicidade. Tornou-se distante, estranha.
Será possível encontra- lá no dia-a-dia?! Será que a encontraria nas minhas caminhadas matinais, na minha casa, nos meus afazeres, ou quem sabe até mesmo salão de beleza, imersa naquela tão subversiva fraternidade feminina.
Pergunto-me onde me perdi, onde meus sonhos se perderam?!
Não era justo! Logo eu que havia seguido todos os manuais. Segui as dicas, os testes e até o horóscopo das revistas femininas. Era boa filha, boa esposa, boa mãe.
Hoje me sinto como parte integrante desse lugar, mais um objeto, velho, empoeirado.
Vejo minha família indo e voltando de seus compromissos, cheios de novidades e de vida. E assim passam por mim, passam pela velha casa, sem sequer notar que estamos envelhecendo, precisando de cuidados e de reparos. A casa, de reparos em sua já deteriorada estrutura; e eu, de reparos em minha alma.
Mas há dias felizes sim. Dias em que eu me entrego a aventuras e amores. Dias em que meu mundo torna-se muito maior. Há dias em que sou Luísa, linda, romântica, às vezes tola... Outro dia posso ser Emma, mais conhecida por Madame Bovary, ah, essa sim era sonhadora. Se eu sou como elas?! Não, isso não... Tão tolinhas, pobrezinhas. Apaixonar- me, fazer desse sentimento razão de minha existência e depositar nele toda minha felicidade?! Eu prefiro ser Dom Quixote e guerrear com os moinhos... Meus moinhos são meus gigantes da alma. Meu medo. Medo de enlouquecer nessa batalha entre eu e meu cotidiano. Minha ira. Que é alimentada pela minha ambição de deter o poder ao menos sobre minha vida. E o meu dever. Esse que entulha meu caminho com tantas obrigações para com os outros.
E agora era hora, hora de transgredir, subverter essa ordem, essa mesmice. Hora de responder a pergunta: “Decifra- me ou te devoro”?! Era hora de reencontrar a meninota que ficou tanto tempo esquecida. Era tempo de Dona Felicidade me visitar. Reaver sonhos esquecidos...
Ah sim, já era hora... Era hora do jantar. Hora de ir para o fogão. E então a mesa posta, comidinha na mesa. A família se reunirá mais uma vez para contar os acontecimentos de mais um dia. E eu... Eu mais uma vez me resignaria diante de mais um dia onde apenas sonhei e nada realizei. Então acalmei minha alma e meu coração para um novo amanhã. Mais um, para travar minha batalha com ele... Meu cotidiano.
Michele Isensee