Eu, uma bobó


Imaginem vocês, ela veio a jato. A mãe de Marina ficou sabendo de sua existência quando entrou no quinto mês de gravidez, portanto não tivemos que esperar muito, só esperamos quatro meses. No dia que ela nasceu, fiquei a noite inteira aguardando por sua chegada na maternidade. Deu o sinal que vinha, depois ficou enrolando para nascer. Se eu fosse ela também tinha enrolado, pois as coisas aqui fora não são nada fáceis. Quando nasceu era ela que iniciava o coro do choro no berçário. Ela chorava forte e as outras crianças acompanhavam. Olhei seus pezinhos escuros e estranhei, ficando um pouco preocupada.” Meu Deus, será que é algum problema?” Depois pensando melhor:” Boba é a tinta que passam nos pés dos bebês para carimbar”. A dizer a verdade, a idéia de ser avó sempre me assustou. Tinha a errada impressão que quando se é avó não se pode fazer as coisas que nos dá prazer. Associava a palavra avó com velhice e isso me apavorava. A velhice às vezes apavora. É triste ter a impressão de se ver murchar. Sinto a crueldade com que os idosos são tratados. Quase sempre deixados de escanteio, desprezados... Vejam, não sou velha e já sinto o preconceito dos mais jovens e isso me entristece. Mas vamos falar coisas agradáveis. Marina agora está lá em casa. Que menina linda, sorridente, olhinhos espertos. Mesmo falando para ela que o fato de eu ser sua avó seria o nosso segredo, surpreendo me ensinando Marina a falar: “Marina, fala vovó! Marina, fala vovó!” Outro dia, para minha alegria, ela falou bobó. Que menina esperta! Eu sabia que era de mim que ela falava, afinal, bobó também vem de bobona. E eu me sinto uma completa bobona de tanta felicidade. Faço palhaçada, canto, interajo com ela, aperto seu corpo ao meu e dançamos. È a vida renovada, é a minha esperança renovada. É ser mãe sem ter parido. É ter mais prazer que obrigação. Deus, como é bom ser bobó! Quero ser bobó várias vezes.

Solange Rossignoli 27.07.2009