Esta pessoa de nome Armando é um ser muito especial em minha vida. Ele, de tão estimado me faltam palavras para demonstrar o tamanho de minha admiração e carinho. O tio era caçula dos sete filhos de minha avó, rapaz bonito e carismático. Visitava a nossa casa, agora casa de minha mãe, desde que eu era criança. Sua presença, somada aos causos contados, faziam meus olhos cintilarem de tanta curiosidade. Todo mundo tem um tio de sua predileção, eu amei todos, mas com esse tio tive afinidades a mais, pois me alegrava o jeito divertido com que ele levava a vida. Sempre me pareceu um menino, mesmo depois de mais velho, irmão de minha mãe Lola. Tinha como profissão motorista e certa época transportava flores. Eu via essa sua última profissão antes de se aposentar de maneira romântica. Imaginava ele a levar rosas para todos os cantos do Brasil, e achava isso tão bonito. Sei que por ter que cumprir horários para entregas, costumava correr um pouco mais do que devia quando dirigia, deixando a minha mãe preocupada. Devido a isso a mãe vivia sonhando com ele. Certa vez sonhou com um acidente. Neste sonho, ora meu pai aparecia machucado, ora meu tio. No final da tarde do dia seguinte meu tio chegou do serviço com a cabeça enfaixada. O capô do caminhão caiu em sua cabeça quase provocando o pior. Lola, a minha mãe, tinha sonhos que quase sempre aconteciam. Aconteceu comigo também. Certa vez sonhou que me via sendo atropelada, mas não deu muita atenção. No outro dia, sai de casa junto com minha irmã para comprar doce de vela. O doce era parecido com vela branca e tinha umas listras vermelhas. Não deu outra, soltei a mão de minha irmã e atravessei a rua, foi quando um caminhão me arremessou três metros de distância encima de um barranco. Lembro da multidão de pessoas querendo me socorrer. Fiz xixi no colo da pessoa que me pegou. Não morri, é óbvio. Às vezes, ouço falar que só se morre na hora certa e isso parece ter um fundo de verdade. Já meio escaldados com os sonhos de minha mãe, achávamos que se avisássemos as pessoas envolvidas na previsão poderíamos impedir que algo de mal lhes acontecessem. Não passou muito tempo, mãe sonhou com o tio se acidentando novamente, fiquei apavorada e disse:
_Mãe, Nós precisamos avisar o tio.
Mãe pegou o telefone e ligou para o tio
_Mando, é a Lola. Sonhei que você se acidentou. Quero que tome cuidado.
O tio respondeu com seu jeito debochado:
_ Lola, Eu fui viajar para o Nordeste. Bati com o caminhão no poste e tô de volta.
Pode ser que alguém lendo essa estória, esteja pensando o porquê a minha mãe não sonhava com o primeiro prêmio da loteria federal em vez de tragédias. Pois é, ela sonhou, mas para o nosso azar não achamos o bilhete para comprar.
Solange Rossignoli