Oficina irritada
CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE

Eu quero compor um soneto duro
como poeta algum ousara escrever.
Eu quero pintar um soneto escuro,
de dor, no que não se pode crer.
seco, abafado, difícil de ler.

Quero que meu soneto, no futuro,
não desperte em ninguém nenhum prazer.
E que, no seu maligno ar imaturo,
Um eclipse maduro possa jazer.
ao mesmo tempo saiba ser, não ser.

Esse meu verbo antipático e impuro
há de pungir, há de fazer sofrer,
impondo um amanhã vazio e escuro.
tendão de Vênus sob o pedicuro.

Ninguém o lembrará: tiro no muro,
cão mijando no caos, enquanto Arcturo,
no céu, é tudo que se pode ler.
claro enigma, se deixa surpreender.

por Silvio J. Pedro